Força criativa


FOTOS DIVULGAÇÃO/ANDRÉ FRANÇA

Peça (1) da exposição “Crônicas no Barro do Vale do Jequitinhonha”, de Noemisa; gravura (2) Paulo Nazareth e escultura em papel filtro de café (3) de Abadia França


Morgan da Motta (*)
CRÍTICO/ARTES VISUAIS


A partir de 20 horas de amanhã, na Galeria BDMG Cultural, o artista plástico Paulo Nazareth apresenta o que há de mais recente de suas pesquisas: uma seleção de gravuras mesclando suas propostas atuais ao trabalho de autores anônimos. Neste trabalho, ele evidencia a presença da gravura em nosso cotidiano, como nas passagens de ônibus, tíquetes, convites, vales-refeições, panfletos, anúncios, jornais e rótulos de produtos, trazendo questões relativas ao universo da gravura e seus desdobramentos.
</NORMAL>Enfim, suas gravuras são contemporâneas porque falam do nosso tempo.A técnica é tradicional e moderna porque existem juntas no mundo atual.Ele se apropria do cotidiano e de tudo que nosso olhos vêem em nosso dia a dia, mas que nem sempre são notados à primeira vista.As propaganda baratas que recebemos no sinal de trânsito, o anúncio de igrejas e outros centros religiosos são parte desse conjunto, onde suas próprias gravuras são incluídas.
Tecnologias atuais podem se tornar obsoletas para o mercado próximo, no entanto a obra de arte mesmo que contemporânea é atemporal podendo dialogar com o futuro ou um passado distante, uma de suas funções talvez seja criar pontes entre diferente realidade e período temporais.Em nível de rótulos praticamente desde a década de 60 artistas nacionais e internacionais, como por exemplo os ícones da pop-art norte americanas já esgotaram todo um repertório...Nazareth nasceu em Governador Valadares e atualmente vive e trabalha na região metropolitana de Belo Horizonte. É bacharel em Desenho e Gravura da EBA da Universidade Federal de Minas Gerais.Do seu currículo constam mostras nacionais e internacionais, a partir de Festivais de Artes Visuais na Índia e na Indonésia.
O Vale do Jequitinhonha é sem dúvida, um dos maiores celeiros de artistas populares de Minas Gerais. De lá, trabalhos a partir do barro revigoraram a arte popular e conquistaram a admiração nacional e internacional. Noemisa vem de família de ceramistas instalados em Caraí, no Vale, há pelo menos uns trezentos anos. Aprendeu o ofício muito cedo com a mãe, Joana Batista, porém, em vez de fazer panelas e potes, passou a criar cenas que deixaram o caráter utilitário e migrou para o mundo dos sonhos. Criou estilo próprio e faz do seu trabalho uma verdadeira crônica de vida rural que habita.
Como nunca se casou, ele dedicou grande parte de sua obra para retratar as cenas da cerimônia religiosa, que hoje se recusa e produzi-las. Apesar de ser uma das grifes mais originais da arte da cerâmica brasileira, e hoje aos 62 anos, vive isolada e em condições econômicas difíceis no Córrego da Capivara, no município de Caraí. Sem energia elétrica, água escassa, em clima seco e quente o ano todo. Isto sem dizer que o acesso à sua casa é à pé, em torno de 6 km da estradinha até a sua casa.
Para se ter uma idéia da importância de uma das artistas de maior reconhecimento, com suas cerâmicas bastante criativas e originais, ela integrou exposições como: Arts Populaires (Grand Palais, em Paris), Mostra do Redescobrimento (Fundação Internacional Bienal de São Paulo), Vozes e Visões (Fundação Palácio das Artes)... Seu trabalho está também no Museu de Folclore Edison Carneiro (Rio de Janeiro), Museu de Arte Popular Brasileira do Centro Cultual de São Francisco (Paraíba) e em coleções particulares de grande importância no País e no exterior. Ela é também destaque em todas as publicações sobre artesanato e arte popular no Brasil.
No total, estão na mostra 35 peças, sendo que 20 são do Acervo do Sesc-Minas e as restantes de acervos particulares, que traçam um painel no tempo, com peças antigas e de produção recente, sob curadoria de Joubert Cândido.
A mostra de Noemisa, considerada a maior ceramista popular do Brasil, pode ser visitada de segunda a sexta, de 12h30 às 18h30, na Galeria de Arte do Sesc, à Rua Tupinambás, 956, primeiro andar.
Hoje e amanhã - Última Chamada - são as últimas oportunidades de visitas à individual de Abadia França, no Minas Shopping, na Cidade Nova. Além de politicamente correta, com suas esculturas monumentais, são na sua maioria confeccionadas com materiais descartados no dia-a-dia, como papel filtro de café, papel de pão e retalhos de tecidos.
De formação acadêmica, graduada e pós-graduada em Artes Plásticas, atualmente Abadia trafega pelas esculturas essencialmente ecológicas elevadas à arte contemporânea.
Atualmente, conforme a artista, ela as cria explorando as emoções desdobradas com ações, movimentos, gestos e, por que não? até com comoção. Por sua vez, além dos filtros, papel no estilo pão e sobras de tecidos passaram a ser elementos aglutinantes que corroboram com novos efeitos visuais e monumentais.
A mostra «Cenas Urbanas», com esculturas ecologicamente e politicamente corretas de Abadia França, pode ser visitada hoje e amanhã, no Minas Shopping (Avenida Cristiano Machado). O sucesso tem sido tanto que sugere-se um adiamento de mais uns 15 dias.


(*) Morgan da Motta é jornalista e crítico de arte, membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte e da Associação Internacional de Críticos de Arte - Orgão da Unesco.
Home Page: www.morganmotta.com
E-mail: mmotta@hojeemdia.com.br


06.10.2008