Um museu para a modernidade
FOTOS: CRISTIANO COUTO
Mauro Tunes,na Grande Galeria; fachada e detalhes dos retratos de Inimá: prédio histórico à trajetória do pintor mineiro
Morgan da Motta (*)
CRÍTICO/ARTES VISUAIS
O Museu Inimá de Paula será inaugurado hoje, às 19 horas, no prédio tombado do antigo Clube Belo Horizonte, inteiramente
restaurado e modificado em sua estrutura interna, espaço alocado pela Secretaria de Estado da Cultura de Minas Gerais, na Rua
da Bahia, onde funcionaram o Cine Guarani e o Clube Belo Horizonte. Trata-se de justa homenagem a um de nossos mais
importantes artistas plásticos, Inimá José de Paula, falecido em 1999.
A proposta visa antes de tudo, por meio das obras do artista, contar a trajetória do pintor e sua inserção no contexto
cultural brasileiro, apresentando um panorama histórico do Brasil do século XX.
O local também irá abrigar exposições temporárias de artistas emergentes e consagrados, além de programação diversificada de
acontecimentos culturais e corporativos.
Após registro de quase duas mil peças e da edição de dois volumes de obras catalogadas, a diretoria da Fundação Inimá de
Paula concretiza a viabilização do Museu, que surge com proposta high tech em estrutura inédita no Brasil. Além de manter
rico acervo permanente, totalizando 80 obras do artista, o Museu será centro cultural completo, também aberto a exposições de
novos artistas, seminários, cursos e workshop, e contará com cinema, livraria, loja e café-gourmet - conforme afirma o
presidente da Fundação e idealizador do projeto, Mauro Tunes.
Tunes explica que a consolidação era um sonho que parecia distante de ser alcançado; no entanto, contando com mais de cem
pessoas trabalhando no desenvolvimento dos seis pavimentos, em área total de 3300 m2, o sonho vira realidade.
À restauração do prédio, que começou em março de 2007, foram investidos R$ 4 milhões, integralmente doados por Mauro Tunes
Júnior, sem nenhum outro patrocinador ou mecenas. O projeto é do arquiteto mineiro Saul Vilela.
Além do acervo permanente e o espaço cultural, uma galeria virtual equipada com telão de 13 x 2,5 metros vai permitir ao
visitante interagir com todo o acervo de 1800 obras catalogadas do artista. Com a ajuda do computador, o visitante poderá, de
maneira muito simples, montar exposições temáticas das obras do Inimá de Paula, e essas mostras serão exibidas em tamanha
natural no telão, ressalta Mauro Tunes.
Quanto ao antigo Cine Guarani, com capacidade para 150 pessoas, foi totalmente remodelado e modernizado com equipamentos de
última geração. Por sua vez, o espaço, uma conjugação de auditório, cinema e teatro, vai abrigar apresentação de peças,
eventos musicais e encontros corporativos.
Dois andares são destinados às obras do artista mineiro. As propostas mais representativas do pintor estarão em exposição
durante todo o ano. Esse acervo, composto por mais de 80 obras, será anualmente rearranjado, seguindo diferentes propostas
curatoriais, o que permitirá também dinamizar o patrimônio principal do Museu e propor exposições diferenciadas.
A sala de auto-retratos apresenta uma proposta inovadora. Em espaço escuro, as obras recebem iluminação especial,
enquadradores automatizados, com tecnologia de última geração e desenvolvida especificamente para criar dramaticidade e
impacto visual.
Quanto à Galeria Virtual, o encontro entre arte e tecnologia conjuga espaços reais e virtuais. Todas as mais de 1800 obras
catalogadas pela Fundação podem ser exibidas em tamanho natural numa tela projetada para tal fim, com imagens em alta
definição geradas por quatro projetores. Tudo isto ficará em display no térreo e no mezzanino.
O Museu estará aberto à visitação de quarta a domingo, de 10 às 19 horas. Adultos pagam R$ 5. Idosos, crianças e estudantes
pagam meia. Excursões escolares terão descontos na tarifa. No primeiro mês, o valor pago pelos visitantes será de R$ 3. Todo
o dinheiro arrecadado será empregado na manutenção e conservação dos diferentes espaços expositórios.
Retratos e a fase abstrata inauguram rol dos temporários
Detalhe da exposição que reúne raridades da arte abstrata noMuseu Inimá
O Museu Inimá de Paula, a ser inaugurado hoje, terá o espaço Plataforma como palco das exposições temporárias. A mostra
“Retratos versus Fases Abstratas”, cartaz dos próximos três meses, resulta na síntese de toda a obra abstrata e dos portraits
criados pelo artista.O pintor Inimá de Paula ocupa uma posição diferenciada na arte de elaborar portraits (leia-se retratos e auto-retratos). O conjunto exposto, de caráter moderno e por extensão contemporâneo, envolve desde as influências guignardianas - com paisagens ao fundo - até uma síntese significativa da pintura européia em interface com o que se cria nos Estados Unidos e, particularmente, na inglaterra (influências da pop-art norte-americana e retrato contemporâneo inglês).
Resumo de carreira de mais de 60 anos, tal recorte reúne obras vistas e revistas até hoje em contraponto com propostas inéditas, já que integram acervos particulares. Trata-se de um estudo pictórico sério, alinhado às tendências internacionais.
Nosso interesse pelo artista e sua trajetória ocorreu quando da inauguração da sede da Associação Mineira de Imprensa (AMI, outubro de 1979). Na ocasião, como responsável pelas curadorias de retratos de Inimá e pôsteres de artistas da Pop-art-USA, teve início nossa pesquisa sobre o artista e sua obra.
Sob o título “Idas e Vindas pela Abstração”, o historiador e curador do Museu Inimá de Paula, Júlio Martins, assim se expressa: “Reunimos aqui um conjunto diversificado de obras que produz convergências em torno da abstração. As obras da Fase Abstrata propriamente demonstram a coerência da pesquisa pictórica desenvolvida por Inimá e, paralelamente, outras obras compõem o que poderíamos nomear por seus antecedentes e reverberações ’desviantes’. Assim, as obras anteriores e posteriores à Fase Abstrata cooperam na construção de uma narrativa fragmentada em torno deste núcleo coeso, revelando, neste percurso, as idas e vindas de Inimá pela abração”.
(*) Morgan da Motta é jornalista
e crítico de arte, membro da Associação Brasileira
de Críticos de Arte e da Associação Internacional
de Críticos de Arte (ABCA-AICA).Home Page: www.morganmotta.com.
E-mail: mmotta@hojeemdia.com.br
28.04.2008